para ler ao som de beginning to see the light - velvet underground
How does it feel, to be loved?
E chegamos a isso que se chama vida.
aí, você se olha no espelho porcamente ajeitado na parede, percebe algumas marcas e tem a pachorra de murmurar um "parece que foi ontem”. E você vive em murmuros, apaixona-se em silêncio, perde a mulher (o homem, o peixinho dourado, o cachorro) da sua vida. Mas tudo passa e não passa. Esse vai-vém meio doce, meio rude. E então, você espera. Ou finge que não. Ou finge que sim. Levanta-se, lembra de ter se prometido uma massagem profissional, uma nadadinha aos finais de semana, um sofá, um filme, uma balada, um livro, um bocejo, qualquer descanso. Mas nada... Já passa das 23h, você tem que dormir, não pode fazer planos, teu dinheiro tá curto, sua pele tá uma bosta, aquele gosto amargo não sai da boca, aquela ressaca não tira uma lasca sequer desse seu. Sofrimento? Quem é você pra dizer de sofrimento, babaca, carteira assinada, cartão de crédito, tecnologia, pés quentes, cobertores, regatas, roupas legais, óculos legais, amigos legais, programinhas cults. Quem é você? E ainda tem a pachorra de balbuciar um "parece que foi ontem". Você se acha digno de lembranças, de presentes no aniversário, natal, cerveja às sextas-feiras, no boteco de sempre, com os amigos de antes... o valor da conta sobe-sobe, a sua atitude não muda, você queria ser um mochileiro e nem tem uma mala que preste, você sempre quis ser diferente e acaba igual aos outros, você sempre quis. Você não tem mais ídolos, não tem mais centro, não tem mais. Daí que suas narinas são saudáveis, apesar do pozinho que se usa nos sábados mais frenéticos, augusta, qualquer festa louca por acaso, qualquer esquina, qualquer boteco, qualquer banheiro sujo da Cardeal, um passeio pra ver a Paulista amanhecendo e aqueles prédios tristes tapando o céu que mesmo azul, ainda lembra um cinza desbotado. A cidade não para, você também não, você é engolido por ela e, quando vê, até a quebra de rotina acaba na monotonia, você ouve Cazuza, algum rockzinho do momento, 70' pra alimentar um underground sujo de lama. Aquela roupa por lavar no cesto, aquele seu quarto que se torna cada vez menor de tanta coisa que se enfia nele, aquele mesmo quarto que se torna imenso quando você está sozinho, insônia que o acidozinho de ontem causou, não tem ninguém em casa, você acha que vai morrer, liga pra qualquer amigo, mas ele tá naquela festa, mais louco que você e dá risada da sua badvibe. Dia seguinte, teus pés estão dormindo, sua nuca está doendo, suas pernas não podem mais, sua cabeça está rodando e. Nãonãonão. Você não se lembra de merda nenhuma da noite anterior e ainda tem a pachorra, seu filho da puta, ainda tem a pachorra de dizer que.
13/10/2010
Prelúdio
1 semana atrás
1 comentários:
Olha, antes do ônibus sair eu quero te falar uma porção de coisas.
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